As aventuras do estruturalismo
A etnóloga Anne-Christine Taylor fala sobre a atualidade do pensamento do "astrônomo das constelações humanas", Claude Lévi-Strauss
Considerado o "pensador do século 20", ao consolidar um dos métodos mais revolucionários no âmbito das ciências humanas, o antropólogo Claude Lévi-Strauss completa cem anos de idade em 28 de novembro de 2008. Suas pesquisas etnológicas, elaboradas pelo "astrônomo das constelações humanas", como ele mesmo se define, procuravam repensar as relações entre homem e sociedade, entre cultura e natureza, e modificaram em definitivo nosso jeito de enxergar o mundo. Não bastassem suas contribuições teóricas, que continuam a reverberar nas diversas áreas do conhecimento marcadas pelo estruturalismo, desde a psicanálise à crítica literária, a importância institucional de Lévi-Strauss no Brasil não encontra precedentes. Entre 1935 e 1938, Lévi-Strauss integrou a primeira missão universitária francesa, contribuindo, juntamente com Fernand Braudel, Roger Bastide, entre outros, para a criação da Universidade de São Paulo. Essa experiência brasileira atravessa praticamente toda sua obra, mas é desenvolvida de forma mais específica e biográfica em livros como Tristes trópicos e Saudades do Brasil, e no livro de fotos Saudades de São Paulo. Por ocasião do centenário, parte da obra mais siginifcativa de Lévi-Strauss acaba de entrar na coleção "Bibliothèque de la Pléiade", da editora Gallimard, referência para os trabalhos que pertencem ao patrimônio literário e filosófico francês.
O estruturalismo hoje
A etnóloga e especialista em culturas indígenas da Amazônia, Anne-Christine Taylor, fez seu doutorado com Claude Lévi-Strauss. Hoje é professora do Musée du quai Branly, pesquisadora do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científica) e do Laboratório de Antropologia Social (criado por Lévi-Strauss), tendo ministrado diversos cursos na Universidade de Nanterre-Paris, na Universidade de Quito e na Universidade de Chicago. Nesta entrevista, concedida ao antropólogo brasileiro radicado em Paris, Marcelo Fiorini, Taylor fala sobre o legado dos trabalhos de Lévi-Strauss no cenário acadêmico atual, sobre sua histórica contraposição ao existencialismo e às filosofias do "eu", sobre seu interesse pelas artes, e também sobre sua participação política no pós-guerra.
CULT - Quem são os continuadores do trabalho de Claude Lévi-Strauss?
Anne-Christine Taylor - Esta é uma questão complexa. O trabalho continua sendo desenvolvido através de linhas bastante divergentes. Na antropologia propriamente dita, não é na França que o desenvolvimento atual de sua obra é mais frutífero. Eu diria que isto se dá, na realidade, no Brasil. Especialmente no trabalho de Eduardo Viveiros de Castro, nos antropólogos e colegas que ele tem influenciado. Estes antropólogos realmente estenderam ou mesmo reconfiguraram o trabalho de Lévi-Strauss.
CULT - Sua influência na França também continua forte?
ACT - Na França, Lévi-Strauss evidentemente influenciou, e de forma fundamental, praticamente todos os antropólogos das últimas gerações. Mas influenciou de tal forma que se tornou invisível. Sua obra se transformou, por assim dizer, no ar que se respira. Ou respira-se este ar, ou procura-se se afastar dele. Os que na França têm redescoberto o trabalho de Lévi-Strauss, debatendo-o e aprofundando-o, são alguns jovens filósofos que vêm da Escola Normal Superior e estudaram com um professor de filosofia que já se tornou legendário, Claude Imbert, que atraiu muitos de seus estudantes de filosofia para a antropologia: Frédéric Keck, Patrice Maniglier, Marcel Hénaff estão entre eles. Alguns desses jovens filósofos se tornaram até mesmo antropólogos, indo fazer trabalho de campo como é o caso de Frédéric Keck.
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Como está sendo conduzido este trabalho?
ACT - Essa nova geração de filósofos tem avaliado o trabalho de Lévi-Strauss com seriedade, como um pensador que se insere dentro do campo da antropologia. Eles compreendem, portanto, os limites da disciplina, o que é notável, pois isso nem sempre ocorre entre os filósofos. A verdade é que Lévi-Strauss sempre se definiu, antes de mais nada, como praticante de uma disciplina científica, e definiu também o estruturalismo como um método, e não como um escola de pensamento. Pelos limites de uma disciplina, quero dizer que a antropologia se preocupa com fatos específicos dentro de um determinado campo empírico, e que seus praticantes descrevem um tipo de relação com a realidade circunscrita por estes campos empíricos.
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De que maneira esses filósofos se distinguem daqueles chamados de geração "Sartre"?
ACT - Estes novos filósofos consideram Lévi-Strauss sempre dentro do contexto da antropologia, mas, ao mesmo tempo, como um pensador que tem uma forma de pensar interessante e significativa. Esta é a grande diferença entre estes filósofos e aqueles da geração "Sartre", que discutiam com Lévi-Strauss como se ele fosse um colega da filosofia e não compreendiam muito da antropologia, o que fez destas discussões algo um tanto quanto periférico ao trabalho de Lévi-Strauss. É por isso também que Lévi-Strauss se mostrou sempre impaciente com estas discussões e sustentou sempre ser um etnólogo, um praticante de sua disciplina, e não um filósofo, ao passo que, para estes filósofos da geração "Sartre", Lévi-Strauss era um filósofo que fazia, secundariamente, também a antropologia.
CULT - Lévi-Strauss pode ser considerado também um pensador que se manteve à parte das grandes escolas filosóficas do século 20, como o existencialismo ou a fenomenologia, por exemplo, e que se distancia das filosofias do "eu". Que lugar o pensamento de Lévi-Strauss ocupa nesse contexto?
ACT - Esta também não é questão fácil de se responder. Certamente Lévi-Strauss detesta as filosofias centradas no "eu"; ele não se preocupa com o existencialismo, e apesar de sua admiração por Merleau-Ponty, de quem era um grande amigo, a fenomenologia, principalmente na sua variante "mole," não faz parte de seu pensamento. Há um filósofo cuja admissão ao Collège de France Lévi-Strauss apoiou bastante: Michel Foucault, que por sinal também desenvolveu sua filosofia em contrapartida à filosofia do eu. Ao que parece, Lévi-Strauss teria dito à Foucault: "eu não compartilho de suas idéias, mas acredito que o senhor tem o seu lugar no Collège de France ." Um dos filósofos mais importantes da segunda metade do século 20, cuja menção me parece ausente em Lévi-Strauss, é Deleuze, que parece também não mencionar Lévi-Strauss. O interessante é que Viveiros de Castro, por exemplo, reconfigurou o trabalho de Lévi-Strauss a partir de Deleuze, ou seja, é a partir de Deleuze que ele impulsiona, acredito, a obra de Lévi-Strauss em uma direção particularmente fecunda.
CULT - No campo da antropologia, quem mais você destacaria como seguidores da linha de Lévi-Strauss?
ACT - Há evidentemente, no campo da antropologia, alguns franceses que continuaram seu trabalho. É o caso de Françoise Héritier, no domínio do parentesco, e essencialmente no desenvolvimento da teoria dos sistemas semicomplexos, que já tinha sido esboçada (o que faltou a Lévi-Strauss na época foram dados etnográficos). Philippe Descola se define também como estruturalista, permanecendo fiel ao espírito, se não à letra, da obra de Lévi-Strauss. Emmanuel Désveaux se define como um estruturalista puro, mesmo sendo crítico de Lévi-Strauss, o que é recíproco, uma vez que Lévi-Strauss crê que a maneira como Désveaux limita e ao mesmo tempo aplica o estruturalismo nas Américas é duvidosa. Désveaux quer corrigir Lévi-Strauss, mas por razões que Lévi-Strauss não aceita. Além disso, Désveaux acredita que o estruturalismo é apenas uma teoria para a etnologia das Américas, mas também , segundo Lévi-Strauss, por razões equivocadas, pois resultam em uma história conjectural e em uma espécie de culturalismo continental que está, na verdade, muito longe do sentido de sua obra.
CULT - Seu trabalho também segue uma linha inspirada no trabalho de Lévi-Strauss?
ACT - Tenho uma grande admiração por ele e seu trabalho, mas mais precisamente, uma grande empatia com a mudança do espírito na investigação etnológica que seu trabalho ocasionou. O que me aproxima de Lévi-Strauss é esta mudança análoga no espírito das investigações antropológicas. Lévi-Strauss explica como se percebeu estruturalista ainda em sua infância, quando aprendia a ler, quando notou a diferença entre boulangerie e boucherie - a primeira aplicação de seu método estrutural teria acontecido assim, ainda dentro do seu carrinho de bebê! Acho que a forma de pensar que definiu Lévi-Strauss tem um vigor e uma força analítica incomparáveis. No entanto, não sei se eu poderia me considerar estruturalista, a não ser por uma afinidade quase genética. Eu diria que me sinto menos obrigada ao método estruturalista, mesmo sendo ele uma perspectiva que me é muito próxima.
CULT - O trabalho de Lévi-Strauss foi também assimilado em outros países como os Estados Unidos ou não?
ACT - Eu acho que se há um lugar no mundo completamente hermético ao trabalho de Lévi-Strauss é os Estados Unidos.
CULT - Mesmo no caso de antropólogos como Marshall Sahlins, que dizem ter uma afinidade com o estruturalismo?
ACT - Sahlins talvez seja o mais próximo de uma variante do estruturalismo de Lévi-Strauss na antropologia americana. Trata-se de alguém que realmente compreendeu o estruturalismo como perspectiva, mas ele mesmo não é, de forma alguma, um estruturalista. No mais, não vejo ninguém nos Estados Unidos que tenha tido um diálogo fecundo com o trabalho de Lévi-Strauss. Na Inglaterra houve pelo menos pessoas que responderam à obra de Lévi-Strauss, ao passo que nos Estados Unidos, acho que praticamente isso não existe.
CULT - Parece que há uma certa progressão no trabalho de Lévi-Strauss, que começa com as Estruturas do parentesco e outras estruturas sociais, passando pela mitologia que ocupa o seu trabalho durante as Mitológicas, e que acaba com uma preocupação com a antropologia da arte, ou das artes, por assim dizer. O que teria levado Lévi-Strauss a esta trajetória?
ACT - Não sei se podemos dizer que tenha havido realmente uma mudança de ênfase para as artes. Acho que Lévi-Strauss poderia ter escrito seus artigos sobre grandes músicos ou pintores muito antes do que o fez. Acho que temos que avaliar isto sempre levando em conta o fato que uma obra sempre depende do contexto de uma carreira e da necessidade da legitimação de uma posição universitária, da defesa de uma perspectiva e de uma forma de pensar. Há sempre um caráter estratégico em nossas carreiras. É claro que nas Estruturas elementares do parentesco, por exemplo, já há toda uma elaboração de um argumento intelectual, mas é com Antropologia estrutural 1 e 2 que Lévi-Strauss define um método e se posiciona. Estes livros representam, portanto, a batalha pela conquista de uma posição institucional e a legitimação de uma certa perspectiva. Creio que a partir dos anos 1970, Lévi-Strauss já teria sido complemente capaz de escrever um artigo sobre este ou aquele artista.
Acho, portanto, que essa aparente mudança de ênfase trata-se mais de uma questão de sociologia do saber, ou de políticas editoriais, do que do progresso real de uma forma de pensamento. Lévi-Strauss sempre esteve ligado à questão da arte. La voie des masques ("A via das máscaras"), por exemplo, é um livro sobre a transformação, ou a extensão das transformações inerentes a um sistema mítico, em um sistema plástico. Ele é um prolongamento das Mitológicas, no sentido que é um estudo das formas plásticas como um outro registro dentro de um sistema de transformações. Portanto, ao meu ver, a arte esteve sempre presente no pensamento de Lévi-Strauss e sempre o nutriu, desde o início.
CULT - Qual a importância atual do trabalho de Claude Lévi-Strauss?
ACT - Lévi-Strauss é celebrado como "o grande pensador da atualidade", o que ele não deixa de ser. Acho que ele é muitas vezes aceito como um expoente do pensamento, mas que já pertence há um certo império de grandes escritores apenas para referência. A influência de Lévi-Strauss na antropologia hoje em dia talvez seja mais clara no trabalho de outros antropólogos. Acredito que nossos estudantes leiam-no muito menos do que antes.
CULT - Qual sua opinião sobre a inclusão da obra de Lévi-Strauss na Pléiade?
ACT - É muito importante, pois Lévi-Strauss não é somente um grande pensador, mas também um grande escritor. O volume da Pléiade é admiravelmente editado pela Gallimard, as anotações são excelentes, todo o aparato crítico é formidável. Lastimo que muitos livros foram deixados de fora. Não digo em respeito às Mitológicas, mas, principalmente, a Estruturas elementares do parentesco, ou aos dois volumes de Antropologia estrutural. Não sei porque a escolha de publicar apenas os livros considerados "mais literários" ou obrigar Lévi-Strauss a portar um "chapéu literário". Há algo mesquinho nisto tudo. Nós publicamos Karl Marx na Pléiade, por exemplo, e nem por isso escolhemos o Marx mais "literário". O volume de Lévi-Strauss na Pléiade já vendeu mais de 17.000 exemplares. Todos teriam comprado, acredito, o segundo volume, mesmo se não fossem lê-lo. Acho que muitos não leram também Das capital de Marx do princípio ao fim.
CULT - Algo que me parece pouco compreendido é a questão da participação de Lévi-Strauss no âmbito da vida pública e não só no contexto intelectual. Quais os momentos de sua vida que poderiam ser considerados significativos neste sentido?
ACT - Se falarmos do engajamento político, Lévi-Strauss era próximo da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária) quando ele ainda era jovem, quando era estudante da escola normal. SFIO foi o partido que deu origem ao socialismo não comunista na França. Depois da guerra houve o episódio UNESCO, e não é por acaso que seu engajamento tenha se realizado por uma instituição internacional. Como emanação da ONU depois da guerra, a UNESCO foi a princípio uma instituição que se ocupava das relações culturais entre os países, uma instituição mais combativa e participativa do que ela se tornou depois. Uma instituição capaz de engendrar Raça e história tem que ser considerada uma instituição de muita seriedade.
Além disso, algo que não foi ainda reconhecido é, apesar de sua opção pelo não engajamento político mais recentemente, Lévi-Strauss foi sempre um grande homem de instituições. O Laboratório de Antropologia que ele criou no Collège de France, por exemplo, foi e tem sido muito importante para a disciplina na França. Lévi-Strauss soube sempre negociar, e muito bem, a posição das instituições que ele representou, desde sua passagem pela UNESCO.
Matéria publicada na edição 110 (novembro de 2008)
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